Homo sapiens fragilis indolentus  escrito em segunda 18 julho 2011 13:59

Cada vez mais me surpreende o alto nível de exigência de um ser humano moderno, industrial, sociável digital, longevo, jovem, para uma vida satisfatória. Necessidades surgem num piscar de olhos nesse nosso mundo frenético. Muitas pessoas já não concebem mais viver sem um automóvel particular, televisão (LCD), geladeira (auto-descongelante), computador (portátil), dezenas de bugigangas eletrônicas, comidas embaladas (congeladas), ambiente climatizado. Situações, ambientes, sociedades, trabalhos, construções, ferramentas, alimentos, etc, que a poucas décadas eram "normais", se tornaram abjetos, atrasados, decadentes, indesejados.
O ser humano, primata bípede altamente adaptável, apesar da sua relativa fragilidade física quando comparado a outros animais, sempre soube utilizar sua inteligência para sobreviver e se adaptar a uma ampla gama de ambientes e situações. Através da construção de habitações, confecção de utensílios e vestimentas, uso da linguagem e das mais variadas fontes de alimento, etc, este ser singular tem sobrevivido até então ao teste do tempo e se multiplicado velozmente, especialmente de uns séculos para cá.
Uma das consequências dessa habilidade de se adaptar a diferentes situações foi o surgimento de muitas culturas ao redor do mundo. Cada uma é o reflexo da interação dos grupos humanos locais com seus ambientes durante dezenas ou centenas de gerações. Cada cultura contém os traços das estratégias que tais pessoas utilizaram para sobreviver naquele ambiente. São muito mais do que meros traços peculiares e pitorescos que caracterizam um ou outro povo, como por vezes aparentam ser nos pacotes turísticos; são (ou foram) verdadeiros conjuntos de saberes e práticas necessários a sobrevivência. Contudo, atualmente ocorre uma acentuada perda cultural, o desaparecimento de conjuntos inteiros de conhecimentos coletivos, o abandono de modos de vida diversos. Vemos o crescimento de uma "monocultura globalizada", que engole e subordina todas as demais, fazendo com que os povos enterrem e esqueçam do baú de conhecimentos da humanidade, enquanto esta poderosa cultura se promove como o inexorável caminho do progresso humano através de novos conhecimentos e tecnologias.
Por que isso ocorre? O fenômeno que vemos hoje poderia ser chamado de "a industrialização global da humanidade". Se antes os bens (e o modo de pensar) industriais eram característicos e acessíveis somente para a população de alguns países europeus e norteamericanos e para a elite dos demais países, agora o são para (quase) todos. Há alguns séculos ou décadas atrás boa parte dos utensílios humanos tinham de ser confeccionados no local, através do uso de técnicas centenárias, artesanalmente, um por um, muitos deles requerendo muita mão-de-obra e recursos. Hoje em dia, são confeccionados em larga escala e padronizados em industrias que os produzem com baixo custo e pouca mão-de-obra, que pagam salários fixos que mesmo que aparentemente baixos (quando comparados com os ganhos dos patrões), permitem que estes trabalhadores possam adquiri-los, nem que seja através do crédito, que os deixa ainda mais encaixados nas engrenagens do sistema. Podendo adquirir estes bens que em sua infância não tinham condições, e que seus avós nem podiam imaginar possuir, estas pessoas se dão por satisfeitas. A posse desses bens proporciona conforto, prazer, praticidade, status, economia de tempo e de energia (muscular humana e animal). Logo, é natural que todos anseiem possuí-los. Porém, para isso, é necessário entrar no modo industrial de viver e pensar, isto é, se especializar numa determinada tarefa e repeti-la muitas vezes durante dias, meses ou anos, ganhar a sua parte merecida em moeda corrente (em geral pequena para aqueles que verdadeiramente trabalham e produzem) e troca-la por outra.
Já aqueles que que tentam seguir vivendo tradicionalmente, encontram dificuldades pois grande parte dos territórios e recursos necessários a confecção destes utensílios e produção de alimentos se encontra agora nas mãos de empresas e particulares. Além disso, o desmanche do tecido social e cultural desses modos de vida faz com que estas pessoas sejam naúfragos no mar de seres humanos industrializados, "ricos", bonitos e cheirosos, bem vestidos, digitais, ao seu redor. Isso tem um efeito pronunciado especialmente sobre os jovens, que são facilmente seduzidos pelas novidades e possibilidades de todo um mundo novo que se abre a sua frente. Logo, acaba que mesmo que ninguém seja "obrigado" a seguir determinado modo de vida, são compelidos a entrarem na corrida industrial e digital.
Esta mudança de modo de vida leva algum tempo para operar, mas no fim o resultado é quase sempre o mesmo, variando em grau de acordo com a prosperida alcançada por cada um na sua aventura industrial e com a personalidade individual (cujo efeito não será analisado neste artigo). Aquele ser mais rústico, que resistiria a situações adversas sem pestenejar, se torna um ser domesticado, frágil, indolente, exigente, comodista e reclamante, intolerante ao desconforto ou falta de recursos, crente de que boa parte dos males de origina da falta de dinheiro na conta bancária. Não tolera ou não gosta de passar por situações mais naturais que implicam certo "desconforto" quando comparadas com o ambiente dum apartamento, escritório ou automóvel. Poderiam ser encaradas como momentos de repouso, lazer e divertimento, mas são vistas por muitos como um sofrimento desnecessário e indesejável.
É possível ilustrar estas afirmações de variadas formas. Por exemplo, para muitos que tenham um automóvel, um veículo de passeio, chega a ser quase uma ofensa sugerir que usem o transporte público, ou ande de bicicleta uma vez por semana, ou combine caronas com seus familiares, amigos, colegas e vizinhos, ou vá caminhando fazer compras. Muitas pessoas já acham terrível imaginarem-se realizando uma viagem entre capitais brasileiras a bordo de um ônibus (climatizado), em uma viagem de várias horas de duração, sem realizar que no século passado devia levar dias num trem, ou um mês numa carruagem ou no lombo do cavalo, com alguns pernoites (já que não existiam faróis e os animais cansam) na beira de estradas desertas. Deve causar arrepios cogitar que a algumas décadas atrás quase todo mundo se deslocava ou a pé, ou por tração animal, a poucos km/h. Será que perdemos a capacidade de caminhar? Claro que as distâncias percorridas atualmente são maiores e o tempo (parece) curto, porém muitos deslocamentos cotidianos poderiam ser feitos sem automóveis.
Outra tema é sugerir em produzir ou obter parte de sua comida diretamente, seja através de uma horta e/ou pomar doméstico, ou pegando frutas na beira da estrada ou pedindo em quintais de terceiros, ou produzindo doces, sucos e conservas. Exceto em locais bem interioranos, poucos se dão ao trabalho, pois o supermercado está sempre abarrotado com alimentos da época e os fora de época, e nesse meio tempo catando frutinha se perde a possibilidade de ganhar dinheiro. Entretanto, produzir alimentos era a ocupação básica dos humanos a pouco tempo atrás, quando creio que o desemprego não era um problema. No ambiente rural, é surpreendente toda a fartura da natureza, presente seja em terrenos abandonados, quintais ou beiras de estrada, na forma de frutas, verduras e cipós. A maior parte se estraga, vira comida de vermes, fungos ou bactérias (tudo bem, eles também merecem). Tanta fruta que mal é possível dar conta de colhe-las e comê-las.
Pensar em formas de reutilizar seus resíduos é coisa de pobre, lixeiro, que junta tralhas e não quer gastar, pois o certo é ir direto ao shopping comprar um modelo moderno, lustroso, brilhante e caro de qualquer bem material imaginável. E relatos orais contam que em Maquiné-RS os vestidinhos das crianças (sejam meninos ou meninas) eram feitos com sacos de açucar, de tão "pobres" que eram. Tempos difíceis. Ainda bem que hoje em dia boa parte das garrafas PET e vidros são reutilizadas, de uma forma ou outra, para guardar sementes, milho, feijão, sucos, combustíveis e liquidos em geral.
Uma das consequências de tudo isso é a a redução da capacidade geral das pessoas de de enfrentar situações adversas. Não me refiro aqui problemas de relacionamento no trabalho ou na família, mas sim de situações reais de desconforto físico. Andar de bicicleta uma distância superior a poucos km é loucura. Sair na rua com chuva, mesmo vestindo uma capa de chuva, é algo a se fazer somente em momentos estritamente necessários. Dormir fora de uma cama é algo impensável para boa parte da humanidade. Entretanto, como é belo e profundo acampar em meio a natureza, com as estrelas brilhando no céu e os grilos cantando do lado da barraca. E isso que hoje em dias temos sacos de dormir compactos e confortáveis e barracas de material sintético impermeável, fáceis de armar e leves. Imaginem a algumas décadas, quando as barracas eram muito mais pesadas, ou numa época onde não existiam plásticos e sacos de dormir. Apesar destas tecnologias serem relativamente acessíveis, muita gente acha impensável "acampar sem banho quente e rodeado de mosquitos", nem que seja por uma ou duas noites apenas. E mesmo sem nada disso os tropeiros viviam a tocar o gado, dormindo ao relento sobre os arreios e enrolados no pala. Aqueles que eram os Homo sapiens de verdade, e estes temo que estejam extintos. Poderiam ser citados outros exemplos, mas creio que a mensagem já se fez entendida.
Outro fato nefasto é a redução da capacidade criativa geral das pessoas. Se em um outro tempo elas eram obrigadas a "inventar" soluções para seus problemas e criar manualmente parte de seus bens, agora tudo é comprável. Se educa e se estimula ao máximo a especialização constante do cidadão, como forma de ascender profissionalmente na sociedade e no mercado de trabalho. Apesar disso aumentar a probabilidade de que seus vencimentos aumentem, isso também aumenta a probabilidade de que ele se torne um cidadão alienado das interrelações existentes no mundo. É possível contrapor que graças a essa especialização a tecnologia e as invenções ocorrem de forma cada vez mais rápida, mas isso não é um fenômeno geral da humanidade. Alguns poucos especialistas inventam novidades (boa parte delas bugigangas), os capitalistas inventam uma forma de produzi-las em larga escala e com baixo custo, e o restante do povo implora por um "emprego" (também no sentido de servir para algo no conjunto da máquina social) para ganhar seus merecidos trocados e ter o direito de possuí-las.
Logo, é possível concluir que, seguindo o curso atual da história, existirão proporcionalmente cada vez menos seres humanos da variedade rústica e vigorosa, e mais e mais da variedade frágil e indolente, pois é isso que nosso sistema (que está dentro de cada mente) requer: humanos domesticados, consumistas e comodistas. Quando mais se aproximar destes adjetivos, maior a possibilidade de arranjar um emprego melhor, e aí aumentam os vencimentos, e aí você compra mais tralhas e sobe na vida.
Entretanto, este não é um caminho inevitável, e depende também do senso crítico de cada um. É possível utilizar as modernidades sem abandonar nossa raiz mais humana, aquela que como animais nos conecta aos demais animais, às outras formas de vida e ao Universo, e apreciar os sublimes espetáculos que a Natureza nos proporciona, bastando estar de olhos abertos e disposto a enfrentar vez por outra algumas "adversidades". Mais que uma crítica à humanidade, o texto deve ser um alerta para o fato de que estamos perdendo estas conexões, e que ainda é tempo de recuperá-las, bastando trabalhar o que há de mais sublime dentro de nós mesmos e buscando a força ancestral que permeia nossas mentes e corpos.

Cada vez mais me surpreende o alto nível de exigência de um ser humano moderno, industrial, sociável digital, longevo, jovem, para uma vida satisfatória. Necessidades surgem num piscar de olhos nesse nosso mundo frenético. Muitas pessoas já não concebem mais viver sem um automóvel particular, televisão (LCD), geladeira (auto-descongelante), computador (portátil), dezenas de bugigangas eletrônicas, comidas embaladas (congeladas), ambiente climatizado. Situações, ambientes, sociedades, trabalhos, construções, ferramentas, alimentos, etc, que a poucas décadas eram "normais", se tornaram abjetos, atrasados, decadentes, indesejados.
O ser humano, primata bípede altamente adaptável, apesar da sua relativa fragilidade física quando comparado a outros animais, sempre soube utilizar sua inteligência para sobreviver e se adaptar a uma ampla gama de ambientes e situações. Através da construção de habitações, confecção de utensílios e vestimentas, uso da linguagem e das mais variadas fontes de alimento, etc, este ser singular tem sobrevivido até então ao teste do tempo e se multiplicado velozmente, especialmente de uns séculos para cá.
Uma das consequências dessa habilidade de se adaptar a diferentes situações foi o surgimento de muitas culturas ao redor do mundo. Cada uma é o reflexo da interação dos grupos humanos locais com seus ambientes durante dezenas ou centenas de gerações. Cada cultura contém os traços das estratégias que tais pessoas utilizaram para sobreviver naquele ambiente. São muito mais do que meros traços peculiares e pitorescos que caracterizam um ou outro povo, como por vezes aparentam ser nos pacotes turísticos; são (ou foram) verdadeiros conjuntos de saberes e práticas necessários a sobrevivência. Contudo, atualmente ocorre uma acentuada perda cultural, o desaparecimento de conjuntos inteiros de conhecimentos coletivos, o abandono de modos de vida diversos. Vemos o crescimento de uma "monocultura globalizada", que engole e subordina todas as demais, fazendo com que os povos enterrem e esqueçam do baú de conhecimentos da humanidade, enquanto esta poderosa cultura se promove como o inexorável caminho do progresso humano através de novos conhecimentos e tecnologias.
Por que isso ocorre? O fenômeno que vemos hoje poderia ser chamado de "a industrialização global da humanidade". Se antes os bens (e o modo de pensar) industriais eram característicos e acessíveis somente para a população de alguns países europeus e norteamericanos e para a elite dos demais países, agora o são para (quase) todos. Há alguns séculos ou décadas atrás boa parte dos utensílios humanos tinham de ser confeccionados no local, através do uso de técnicas centenárias, artesanalmente, um por um, muitos deles requerendo muita mão-de-obra e recursos. Hoje em dia, são confeccionados em larga escala e padronizados em industrias que os produzem com baixo custo e pouca mão-de-obra, que pagam salários fixos que mesmo que aparentemente baixos (quando comparados com os ganhos dos patrões), permitem que estes trabalhadores possam adquiri-los, nem que seja através do crédito, que os deixa ainda mais encaixados nas engrenagens do sistema. Podendo adquirir estes bens que em sua infância não tinham condições, e que seus avós nem podiam imaginar possuir, estas pessoas se dão por satisfeitas. A posse desses bens proporciona conforto, prazer, praticidade, status, economia de tempo e de energia (muscular humana e animal). Logo, é natural que todos anseiem possuí-los. Porém, para isso, é necessário entrar no modo industrial de viver e pensar, isto é, se especializar numa determinada tarefa e repeti-la muitas vezes durante dias, meses ou anos, ganhar a sua parte merecida em moeda corrente (em geral pequena para aqueles que verdadeiramente trabalham e produzem) e troca-la por outra.
Já aqueles que que tentam seguir vivendo tradicionalmente, encontram dificuldades pois grande parte dos territórios e recursos necessários a confecção destes utensílios e produção de alimentos se encontra agora nas mãos de empresas e particulares. Além disso, o desmanche do tecido social e cultural desses modos de vida faz com que estas pessoas sejam naúfragos no mar de seres humanos industrializados, "ricos", bonitos e cheirosos, bem vestidos, digitais, ao seu redor. Isso tem um efeito pronunciado especialmente sobre os jovens, que são facilmente seduzidos pelas novidades e possibilidades de todo um mundo novo que se abre a sua frente. Logo, acaba que mesmo que ninguém seja "obrigado" a seguir determinado modo de vida, são compelidos a entrarem na corrida industrial e digital.
Esta mudança de modo de vida leva algum tempo para operar, mas no fim o resultado é quase sempre o mesmo, variando em grau de acordo com a prosperida alcançada por cada um na sua aventura industrial e com a personalidade individual (cujo efeito não será analisado neste artigo). Aquele ser mais rústico, que resistiria a situações adversas sem pestenejar, se torna um ser domesticado, frágil, indolente, exigente, comodista e reclamante, intolerante ao desconforto ou falta de recursos, crente de que boa parte dos males de origina da falta de dinheiro na conta bancária. Não tolera ou não gosta de passar por situações mais naturais que implicam certo "desconforto" quando comparadas com o ambiente dum apartamento, escritório ou automóvel. Poderiam ser encaradas como momentos de repouso, lazer e divertimento, mas são vistas por muitos como um sofrimento desnecessário e indesejável.
É possível ilustrar estas afirmações de variadas formas. Por exemplo, para muitos que tenham um automóvel, um veículo de passeio, chega a ser quase uma ofensa sugerir que usem o transporte público, ou ande de bicicleta uma vez por semana, ou combine caronas com seus familiares, amigos, colegas e vizinhos, ou vá caminhando fazer compras. Muitas pessoas já acham terrível imaginarem-se realizando uma viagem entre capitais brasileiras a bordo de um ônibus (climatizado), em uma viagem de várias horas de duração, sem realizar que no século passado devia levar dias num trem, ou um mês numa carruagem ou no lombo do cavalo, com alguns pernoites (já que não existiam faróis e os animais cansam) na beira de estradas desertas. Deve causar arrepios cogitar que a algumas décadas atrás quase todo mundo se deslocava ou a pé, ou por tração animal, a poucos km/h. Será que perdemos a capacidade de caminhar? Claro que as distâncias percorridas atualmente são maiores e o tempo (parece) curto, porém muitos deslocamentos cotidianos poderiam ser feitos sem automóveis.
Outra tema é sugerir em produzir ou obter parte de sua comida diretamente, seja através de uma horta e/ou pomar doméstico, ou pegando frutas na beira da estrada ou pedindo em quintais de terceiros, ou produzindo doces, sucos e conservas. Exceto em locais bem interioranos, poucos se dão ao trabalho, pois o supermercado está sempre abarrotado com alimentos da época e os fora de época, e nesse meio tempo catando frutinha se perde a possibilidade de ganhar dinheiro. Entretanto, produzir alimentos era a ocupação básica dos humanos a pouco tempo atrás, quando creio que o desemprego não era um problema. No ambiente rural, é surpreendente toda a fartura da natureza, presente seja em terrenos abandonados, quintais ou beiras de estrada, na forma de frutas, verduras e cipós. A maior parte se estraga, vira comida de vermes, fungos ou bactérias (tudo bem, eles também merecem). Tanta fruta que mal é possível dar conta de colhe-las e comê-las.
Pensar em formas de reutilizar seus resíduos é coisa de pobre, lixeiro, que junta tralhas e não quer gastar, pois o certo é ir direto ao shopping comprar um modelo moderno, lustroso, brilhante e caro de qualquer bem material imaginável. E relatos orais contam que em Maquiné-RS os vestidinhos das crianças (sejam meninos ou meninas) eram feitos com sacos de açucar, de tão "pobres" que eram. Tempos difíceis. Ainda bem que hoje em dia boa parte das garrafas PET e vidros são reutilizadas, de uma forma ou outra, para guardar sementes, milho, feijão, sucos, combustíveis e liquidos em geral.
Uma das consequências de tudo isso é a a redução da capacidade geral das pessoas de de enfrentar situações adversas. Não me refiro aqui problemas de relacionamento no trabalho ou na família, mas sim de situações reais de desconforto físico. Andar de bicicleta uma distância superior a poucos km é loucura. Sair na rua com chuva, mesmo vestindo uma capa de chuva, é algo a se fazer somente em momentos estritamente necessários. Dormir fora de uma cama é algo impensável para boa parte da humanidade. Entretanto, como é belo e profundo acampar em meio a natureza, com as estrelas brilhando no céu e os grilos cantando do lado da barraca. E isso que hoje em dias temos sacos de dormir compactos e confortáveis e barracas de material sintético impermeável, fáceis de armar e leves. Imaginem a algumas décadas, quando as barracas eram muito mais pesadas, ou numa época onde não existiam plásticos e sacos de dormir. Apesar destas tecnologias serem relativamente acessíveis, muita gente acha impensável "acampar sem banho quente e rodeado de mosquitos", nem que seja por uma ou duas noites apenas. E mesmo sem nada disso os tropeiros viviam a tocar o gado, dormindo ao relento sobre os arreios e enrolados no pala. Aqueles que eram os Homo sapiens de verdade, e estes temo que estejam extintos. Poderiam ser citados outros exemplos, mas creio que a mensagem já se fez entendida.
Outro fato nefasto é a redução da capacidade criativa geral das pessoas. Se em um outro tempo elas eram obrigadas a "inventar" soluções para seus problemas e criar manualmente parte de seus bens, agora tudo é comprável. Se educa e se estimula ao máximo a especialização constante do cidadão, como forma de ascender profissionalmente na sociedade e no mercado de trabalho. Apesar disso aumentar a probabilidade de que seus vencimentos aumentem, isso também aumenta a probabilidade de que ele se torne um cidadão alienado das interrelações existentes no mundo. É possível contrapor que graças a essa especialização a tecnologia e as invenções ocorrem de forma cada vez mais rápida, mas isso não é um fenômeno geral da humanidade. Alguns poucos especialistas inventam novidades (boa parte delas bugigangas), os capitalistas inventam uma forma de produzi-las em larga escala e com baixo custo, e o restante do povo implora por um "emprego" (também no sentido de servir para algo no conjunto da máquina social) para ganhar seus merecidos trocados e ter o direito de possuí-las.
Logo, é possível concluir que, seguindo o curso atual da história, existirão proporcionalmente cada vez menos seres humanos da variedade rústica e vigorosa, e mais e mais da variedade frágil e indolente, pois é isso que nosso sistema (que está dentro de cada mente) requer: humanos domesticados, consumistas e comodistas. Quando mais se aproximar destes adjetivos, maior a possibilidade de arranjar um emprego melhor, e aí aumentam os vencimentos, e aí você compra mais tralhas e sobe na vida.
Entretanto, este não é um caminho inevitável, e depende também do senso crítico de cada um. É possível utilizar as modernidades sem abandonar nossa raiz mais humana, aquela que como animais nos conecta aos demais animais, às outras formas de vida e ao Universo, e apreciar os sublimes espetáculos que a Natureza nos proporciona, bastando estar de olhos abertos e disposto a enfrentar vez por outra algumas "adversidades". Mais que uma crítica à humanidade, o texto deve ser um alerta para o fato de que estamos perdendo estas conexões, e que ainda é tempo de recuperá-las, bastando trabalhar o que há de mais sublime dentro de nós mesmos e buscando a força ancestral que permeia nossas mentes e corpos.

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BURROCRACIA AMBIENTAL - FEITA PARA NÃO SER CUMPRIDA?  escrito em segunda 14 junho 2010 09:46

  Lendo e relendo os formulários ambientais necessários para praticamente qualquer atividade numa propriedade rural, sou assolado por uma sensação mista de perplexidade, raiva e ironia. Isso devido à infinita burocracia, taxas e deslocamentos que são necessários para cortar qualquer pé de mato nativo, conforme manda a lei.
    Quem vos escreve é um biólogo que passou algum tempo dentro da academia, aprendendo conceitos bonitinhos sobre preservação ambiental, mas que decidiu encarar mais de perto a vida junto ao mato (as breves saídas de campo de dois a quatro dias já não mais satisfaziam a ânsia de estar perto da natureza) e aprender um pouco sobre como trabalhar com ela. E que escolheu o bioma da Mata Atlântica como seu lugar de trabalho e retiro do caos urbano instalado na capital, lotada de gente e automóveis.
    Infelizmente a Mata Atlântica foi muito devastada durante o processo de colonização do Brasil, pois era justamente uma mata pujante, repleta de recursos naturais, situada junto à orla na qual desembarcavam milhares de colonos, imigrantes, comerciantes e escravos. As estatísticas dizem que só restaram 7% da área inicialmente ocupada por esta formação vegetal. E isso se tornou um carma para os atuais habitantes do bioma: agora é praticamente impossível realizar qualquer intervenção nas áreas naturais existentes, pois tudo é proibido, ou burocratizado ao extremo. Mesmo que sejam vassourais pobres, mas pior se forem capoeiras e capoeirões em estágio médio ou avançado de regeneração.
    Para trabalhar no mato e plantar alguma coisa é necessário derrubar o mato ou uma parte deste, seja para cultivar plantas anuais, frutíferas, lenha ou para se implantar uma agrofloresta. Também é necessário cortar madeira construir benfeitorias, como casas, galpões, galinheiros, etc. Para colher os produtos oriundos de espécies nativas, cultivadas pelo próprio agricultor, ou mantidas seletivamente durante a roçada, é necessário suprimir parte da vegetação indesejada. Derrubar árvores que estejam podres, ou que tenham seus galhos sobre as casas e demais benfeitorias, ameaçando a integridade destas e de seus habitantes, é emergencial.   
   Entretanto, os burocratas sentados em suas cadeiras de escritório no 10º andar de algum arranha-céu numa grande cidade, não enxergam isso. Afinal de contas, estudaram muito para fazer uma faculdade e passar num concurso público, ganhar bem, comprar um apartamento, um carro do ano e comer comida industrializada do supermercado. Mas todo esse estudo não lhes concedeu a sensibilidade que tem o peão da roça: que não são precisos dez formulários, três laudos, duas taxas e cinco assinaturas para que ele extraia a tora que vai servir de esteio para o seu galpão, ou para que roce um quadradinho de 1 ha de vassoura para plantar milho e feijão, fazer um arvoredo de frutíferas, ou um potreiro para as criações. O colono sabe que o mato regenera, se a terra não for utilizada, e tira vantagem disso. Deixa a terra em descanso alguns anos, depois que esta não lhe traz mais o mesmo retorno. Mesmo se o sujeito quiser plantar árvores nativas, colher o produto e transportá-lo, são necessárias numerosas licenças (uma para cada um dos itens citados, cada uma necessitando de cinco a nove documentos). Não há incentivo nem para aquele que quer inovar, trabalhando a favor da natureza.
   Se eu, que tenho conhecimento de meio ambiente, computação, internet, legislação, etc, tenho dificuldade em entender e superar estes entraves burocráticos, imagine como deve ser para o agricultor. Ele não tem dinheiro sobrando para pagar as taxas e as passagens de ônibus para se deslocar para uma cidade média onde exista cartório de registro de imóveis (vários dos procedimentos requerem a certidão de propriedade da terra atualizada). Pior ainda é se tiver que contratar um técnico estudado da Univer(cidade), que por ter estudado um bocado crê merecer receber uma bolada para escrever um projetinho de poucas páginas e assinar uma ART (Anotação de Responsabilidade Técnica). E o dia de serviço perdido na burrocracia, quem vai pagar?
   A triste conclusão é que tudo isso desencoraja o cidadão de viver ali, pois parte de sua família e de sua comunidade já foi embora, ele tem de encarar o mato sozinho, enquanto antes tinha os parentes e amigos e conhecidos para ajudá-lo. Além disso, a qualquer momento pode chegar o IBAMA, a PATRAN ou outro órgão ambiental qualquer, autuá-lo, recolher sua motoserra, e por vezes humilhá-lo. Por ser simples, ele não sabe quais caminhos legais tomar, para se defender dos abusos de autoridade.
Logo, não resta outro caminho senão migrar para médias e grandes cidades, em busca de emprego e dignidade, jornada esta que para muitos é insucedida, pois não estudaram o suficiente para competir com os nativos do meio urbano. Além do problema social, isso aumenta, ao invés de diminuir, a crise ambiental: o novo cidadão urbano agora consome produtos industrializados que viajam centenas ou milhares de quilômetros, requerem quilos de embalagens e rótulos, são produzidos em larga escala com o uso de agrotóxicos, combustíveis fósseis e eletricidade. Não teria sido melhor se ele ficasse em sua terra natal, vivendo com dignidade, plantando boa parte de sua comida e lidando com a criação, tudo produzido ali mesmo, com menos insumos? Mesmo que para isso tenha que derrubar algum mato?
  É preciso rever a legislação, sim. As leis e requisitos ambientais são absurdos. Proíbe a derrubada em áreas com declividade acima de 25º. Propriedades rurais localizadas em regiões montanhosas são praticamente inviabilizadas. Exige uma ampla faixa de 30m de preservação de cada lado ao redor de cursos d’água, mesmo que estes sejam estreitas sangas com menos de 1m de largura. A água, ao invés de ser uma benção, se transforma em maldição, pois inviabiliza 60m de largura por onde escolher seguir seu rumo. Qual o motivo técnico que torna os topos de morro APPs? Estes “chatos” nos morros sempre foram bons locais para plantio, por possuírem pouca declividade, e alta insolação.
   O que temos no presente é um código ambiental muito bonito no papel, mas impossível de ser cumprido, tanto pelos pequenos como grandes produtores. O que pode ser feito é um flexibilização das regras para os pequenos, que os desonerem dos encargos e papelada necessária para as atividades rurais. Que reconheçam o seu saber e o seu manejo como formas de cuidado ambiental, já que como sua terra é escassa, não podem dar-se ao luxo de destruí-la. Com certeza sabem fazê-lo melhor que os técnicos acima citados. Já para os grandes, poderiam ser mantidas algumas das regras atuais e outras precisariam ser revistas, visto que muitos operam num modo de produção comercial no qual as entradas e saídas de capital, mão de obra, insumos e uso da terra são contadas. Se ele perder 20% da propriedade para a Reserva Legal e mais todas as APPs, talvez vá a falência. Se isso ocorrer, antes de comemorar, não se esqueça que a soja em sistema de monocultura que você tanto odeia, é aquela que alimenta o boi que vai ser morto para que você possa assar seu churrasquinho no apê. Logo, ou largue disso e compre só nas feiras ecológicas, ou vá mora no interior mais próximo das fontes produtoras, e deixe o produtor, seja ele orgânico, tradicional ou convencional, plantar em paz.


Ricardo Vieira Dalbem
Biólogo / Agente Censitário Municipal / Produtor Rural – Maquiné - R

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Esta era já era?  escrito em domingo 08 novembro 2009 09:24

Blog de ricardocc :Ricardo CC Blog, Esta era já era?

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Nos últimos tempos, em repetidos episódios sou questionado (e escuto de amigos semelhantes situações) se estou contribuindo para o INSS, para a aposentadoria, essas coisas. Para surpresa de meus interlocutores, lhes respondo que não, pois não sei se vai existir Brasil ou aposentadoria até lá. Como assim não vai existir Brasil?!

Por todos os lados há evidências que estamos numa troca de era. Elas podem ser percebidas desde o nível dos conflitos internos em cada ser humano até a degradação ambiental da biosfera. Alguma coisa está para mudar. O paradigma atual agoniza, enquanto resiste, tendo espasmos freqüentes. O melhor exemplo é a chamada “crise financeira mundial”. Que nada mais é a crise do antigo sistema, não restringindo-se ao sistema financeiro. Como diria um autor cujo nome não recordo, “uma crise é uma excelente oportunidade para ser perdida”. Infelizmente, é isso que os governantes e mentes individuais e coletivas estão fazendo. Tentando resolver a crise só pelo reaquecimento da economia, do consumo e dos mercados internacionais. Muita burrice: está embaixo dos seus narizes que o caminho é outro; também dou um desconto, afinal estamos agora usando as máscaras para escapar da terrível gripe s..., digo, gripe A ou H1NXYZ2375. Com elas não dá nem mais para enxergar a própria fuça.

De qualquer forma, para o cidadão comum parece que tudo segue como sempre, apenas um pouco perturbado. Ele vai para o trabalho nas suas suadas 40h semanais (os sortudos que não foram demitidos pela queda no consumo), ganhando o direito de comprar sua ração industrializada e suas bugigangas, e o tempo livre do final de semana, ou o domingo, dia de folga. Apesar de estarmos na beira do penhasco, seguimos anestesiados. Anestesiam-nos com a liberdade das urnas, com os espetáculos televisivos e nos grandes estádios, com equipamentos moderníssimos, com automóveis com IPI reduzido e crédito em 72 vezes, com novos sabores sintéticos, novas drogas cada vez mais acessíveis, festas loucas e sexo livre e descompromissado. Sem esquecer o principal ingrediente: muito trabalho, pra ocupar o tempo livre. Tem que trabalhar, trabalhar! “Vai trabalhar vagabundo!” E contribua para o INSS, pois um dia você ficará velhinho e sem forças, e aí... bom, espero que tenha alguém para cuidar de mim até lá. Como diria Jared Diamond no seu livro “O Colapso (2004)”, é esperado que vários problemas atuais se tornem agudos no tempo de vida dos jovens adultos de hoje (ih, sou um deles!)

É hora de rever os objetivos. Parece-me muito mais plausível e confortável uma sociedade que preze pelo trabalho útil, que produza algo de fato, sejam alimentos, bens de consumo, cultura ou organização; não há porque ficar fingindo que se faz alguma coisa, sentado na frente de um computador, esperando a hora de bater o cartão. Se for assim, é melhor trabalhar menos, produzir de fato nas horas profissionais, e nas restantes dedicar-se a uma segunda atividade, a um hobby, à arte, ao esporte, à leitura, ao amor ou ao descanso.

Uma educação real, que sugira tópicos pertinentes ao contexto e ambiente no qual os alunos estão inseridos (cabe pensar na educação para o meio rural), que lhes forneça conhecimento teórico atualizado e não esses monstros engessados de meados do século XX, que busque instigar as causas e possíveis soluções para os problemas atuais, que lhes forneça noções de ecologia ambiental e humana, da origem e destino dos alimentos, bens de consumo e energia utilizados, e também a prática para o trabalho. Enfim, que sirva para alguma coisa para o aluno e para a sociedade, além de encher currículo do futuro profissional.

Importante também é o uso racional dos recursos naturais, numa sociedade que se organize em pequenas e médias comunidades, bairros e cidades, interdependentes, mas com relativa auto-sustentabilidade. Isso significa produzir boa parte dos bens e alimentos que são consumidos na comunidade e na região, priorizar a reinserção das matérias-primas e matéria orgânica nos ciclos de produção (reutilização, reciclagem, compostagem) e realizar o comércio preferencialmente com os vizinhos, ao invés de enviar mercadorias a mercados localizados a milhares de quilômetros de distância, que apenas nos enchem de dólares, mas não criam relações consistentes entre pessoas e comunidades. Essas comunidades provavelmente também estarão reforçando sua cultura local e regional, pois os laços econômicos tenderão a reaproximar a comunidade.

Prezar pela construção de habitações humanas de fato, desprezando estes cupinzeiros de concreto armado com 60 m de altura que aquecem o mercado da construção, onde as pessoas não se conhecem e mais se importunam uns com os outros, do que criam alguma relação saudável. Habitações que ofereçam conforto, usem materiais disponíveis loclamente e técnicas menos impactantes, reciclem e reutilizem boa parte dos seus dejetos, captem água da chuva e energia do sol, enfim, se integrem a abundância da natureza e parem de sugá-la.

Mas do jeito que a coisa vai, do jeito que os cidadãos, os governantes e os mercados querem levar o capitalismo e o planeta até as últimas conseqüências, parece-me que não vamos mais ter essas instituições organizadas em um futuro próximo; o referido colapso de Diamond, fenômeno que já acometeu dezenas de civilizações no passado. Ele não é inevitável: temos conhecimento, tecnologia, comunicação e meios de transporte, mais do que suficientes. Entretanto, é necessário aplicá-los de forma coerente, pela identificação e uso de tecnologias benéficas, ao mesmo tempo em que negamos o uso daquelas danosas as pessoas e ao ambiente, mesmo que gere alguns empregos ou promova o crescimento do valor das ações de determinada corporação. É o dito futuro sustentável (até aqui não utilizei esta palavra, pois creio que tornou-se um clichê, largamente utilizado por empresas que destroem abertamente o meio ambiente) e saudável, para todos que habitam este pequeno planeta Terra. Para aqueles que se apegam a este estilo de vida e o desfrutam, sinto muito: não há outra opção. Temos de repensar e nos readaptar. Senão, pensam que a barbárie será agradável e tranqüila como o pujante início de século XXI?

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VAMOS AO SUPER?  escrito em sábado 07 novembro 2009 17:51

Blog de ricardocc :Ricardo CC Blog, VAMOS AO SUPER?

Em uma recente visita ao supermercado, para sacar dinheiro no caixa eletrônico, parei do lado de fora dos caixas e fiquei observando toda aquela movimentação. Plims-plims incessantes, cada um simbolizando um ato de consumo, carrinhos abarrotados, pouca conversa e pouco dinheiro vivo circulante, muitos cartões magnéticos sendo passados nos leitores. Onde estamos, e para onde vamos?  

                Uma análise rápida das prateleiras adjacentes da fila dos caixas rápidos (um verdadeiro corredor da morte), e do conteúdo dos carrinhos, me mostrou como anda a ração dos modernos: um monte de porcaria industrializada, pior pelo fato de serem porcarias do que serem industrializadas, já que, afinal de contas, o que não é industrializado? Talvez a bergamota no pé de algum urbano metido a jardineiro para ter uma planta produtiva em seu quintal.

                E cada vez mais, tanto nosso senso comum guiado pelos olhos como a estatística do IBGE mostra que as pessoas vivem vidas sedentárias e se alimentam mal; fato que é especialmente dito e reprovado pelos especialistas em saúde na imprensa numa época de “pandemia”, que matou menos de 50 pessoas no RS, muito menos que o trânsito ou doenças convencionais. Dizem eles para as pessoas se alimentarem bem, se exercitarem e cuidarem da saúde, assim sua imunidade estará reforçada. Entretanto, o sistema continua a anunciar guloseimas diariamente a ótimos preços, enquanto que as bananas cada vez tem menos gosto, pois são amadurecidas a força com uso de produtos possivelmente tóxicos.

                Certo, ninguém é forçado a comprar e consumir tais coisas, mas como resistir? Pra começar, temos um instinto primata forte de buscar pelo doce: alguns de nossos primos evolutivos, os primatas, mascam folhas de baixo conteúdo nutricional o dia todo e, quando encontram um fruto mais docinho, deve ser aquela felicidade. Em boa parte da existência de nossa espécie devemos ter consumido frutas como principal fonte de açúcar, além de raízes como carboidratos e carne como proteínas. O que acontece hoje em dia é que esse instinto está sendo super explorado pela indústria alimentícia, que utiliza farinha refinada de grãos como trigo ou milho (por si só fontes quase-puras de carboidratos), adiciona bastante açúcar, outros ingredientes, e uma pequena dose certeira de produtos sintéticos que resultam num gosto espetacular para nossas papilas gustativas acostumadas durante a evolução a comer pobres frutas do mato que, apesar de doces, contêm uma considerável quantidade de fibras sem sabor nas suas constituições.

                Chega a ser algo apelativo, obsceno, devastador, o confronto desses “super-doces” com as patéticas e medianamente doces frutas. Faça um esforço por imaginar o instinto do animal humano, acostumado durante milhares de anos a buscar frutas que lhe garantissem parte da energia para suas atividades de manutenção do metabolismo, crescimento, caminhada, caçada, manifestação artística, construção e reprodução, sendo mais-do-que-saciado por um doce sintético, composto de carboidratos e açúcares refinados em grande quantidade, prontamente digeríveis e absorvíveis. Melhor do que imaginar, faça o teste em você mesmo, no seu nível de felicidade interna ou excitação gustativa: coma uma fruta qualquer preferida sua, e depois um doce de sua preferência. Qual é melhor?

                Além disso, mesmo os alimentos considerados mais “saudáveis”, como feijão, arroz, molho de tomate, frutas e verduras existentes no grande templo do consumo não sãos limpos: estão infestados de agrotóxicos e outras substâncias nocivas tanto para a natureza como para o ser humano, que contaminam os cursos d’água, envenenam os animais, causam doenças sérias em agricultores e vão aos poucos minando a saúde dos vorazes compradores.

                Além dos venenos e das calorias refinadas em excesso, temos o problema do sedentarismo e a “epidemia mundial da obesidade”, como dito no rádio por estes dias. Cada vez mais as pessoas levam vidas sentadas na frente do computador, da televisão, atrás de uma mesa, dentro de automóveis, mexendo o corpo somente para ir ao banheiro e ao restaurante ou lancheria e, no caso dos menos afortunados, para ir até a parada de ônibus. A máquina humana foi projetada para estar em atividade, em movimento. Claro que também aprecia o tempo de ócio, de contemplação, de atividades diversas que exigem pouco esforço.  Temos um instinto natural para ficarmos bastante tempo parados, gastando energia somente com aquelas atividades necessárias a nossa sobrevivência, algo que temos em comum com os animais e seres vivos em geral. É a lei do menor esforço: para que escolher uma maneira mais difícil e cansativa se existe outra mais fácil? O problema é que o mundo mudou muito, com as máquinas fazendo boa parte do trabalho físico, nas últimas décadas; entretanto, nosso instinto não teve tempo de se adaptar a esse novo mundo, e nos impele a comer mais do que necessitamos.  Como geral os trabalhos mais bem remunerados, de maior status, são constituídos por uma rotina sedentária, acaba sendo o que todos almejam para suas vidas: ficarem sentados, lendo, clicando e digitando o dia todo, para ganharem bastante dinheiro e depois poderem comprar um automóvel, eletrodomésticos e televisões de plasma, que lhe permitem ficar sentado tanto no caminho de ida e volta para o trabalho, como após chegar ao lar. E aí são estes os “bem-sucedidos”. Até terem que ir ao cardiologista, nutricionista e psicólogo regularmente. Interessante, não?

                Respondendo a primeira pergunta inicial, creio que chegamos a um beco sem saída: a grande maioria das pessoas já associa diretamente o ato de obter aquilo que necessitam para sobreviver – e também aquilo que não precisam de fato, mas compram, de qualquer forma - com o supermercado. A pergunta que dá título a este artigo é o equivalente de “vamos caçar?”, “vamos pegar algumas frutas no pomar?” ou “vamos fazer uma panela e uma vassoura?”. Ninguém mais sabe como produzir nada exceto aquilo que é estritamente sua especialidade, sua profissão; muitos só produzem pilhas de papel e informação que mais complicam do que facilitam a vida.

                Quanto à segunda pergunta, bem, me parece que a tendência é seguir em direção a uma sociedade tecnológica cada vez mais esbanjadora, pobre de espírito, alienada, dependente da medicina e destruidora do ambiente. Mais pessoas serão desagregadas dos círculos sociais tradicionais, e entrarão no mundo urbano, do capital e do consumo. Como pontos positivos, teremos mais conforto material, comunicação rápida e barata, e meios de transportes mais eficientes e seguros. O saldo dessas mudanças, só o futuro dirá.

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Ao grande Andrei Minuzzo  escrito em terça 06 outubro 2009 15:39

Blog de ricardocc :Ricardo CC Blog, Ao grande Andrei Minuzzo

Esse final de semana, sábado, dia 03 de outubro de 2009, perdemos um grande amigo. Sisudo, humilde, de fala mansa e arrastada, com sotaque forte carregado da serra. De Vacaria, terra que fui convidado a visitar e nunca fui. Gremista, habitante dos lados do Monumental. Biólogo. Policial. Grande motorista. Um cara vivido, sábio da vida, bom de conversar. Gente boa mesmo, não me recordo de nenhuma encrenca, nenhuma ruim.

                Entrou comigo na barra grande 2001/1 da Biologia/UFRGS, já era da Polícia Rodoviária Federal, sempre parceiro para festas e tomar uns goles. Um paizão da galera; éramos tudo gurizadinha nova, com seus 17 - 19 anos, ele já com seus 24. E se divertia, ia a todas que dava, remanejava o horário na PRF para comparecer, e levava o povo no seu Golzinho a milhão. Por vezes pegava direto no trampo, às seis da manhã. Até na cobertura do seu pequeno apartamento no Medianeira organizamos um ou dois encontros, no começo da faculdade. E também fizemos uma memorável viagem a Jaguaruna-SC, em agosto de 2001, na grande greve da UFRGS, fomos passar uns quatro dias. Cada um no seu carro lotado, pegando na BR 101.

                 Cursou a faculdade no mesmo ritmo da sua fala. Devagarzinho, quatro disciplinas por semestre, pra conciliar com o trabalho na PRF. Tudo bem planejado; terminou o curso recentemente, em 2008, no limite do prazo de jubilamento do curso. Biólogo, enfim. O último da galera, junto com o Zé. Sua foto junto comigo, Lívia, Johnny e Pipo segue colada no mural do DAIB. Um dos Titãs, certamente.

                Motociclista também como quem lhes escreve, a algum tempo tinha comprado a sua Twister 250 amarela. Combinávamos de ir pro rincão meu em Maquiné, pelo caminho das grotas do Riozinho, outra viagem que não saiu, por causa das datas. E agora recentemente batedor (os policiais que vão à frente abrindo/parando o trânsito para algum comboio passar). Na recente festa de oito anos da nossa barra da Biologia, nos contou empolgado que havia feito o curso de batedor da PRF. Imaginem, com uma Harley-Davidson 1200, impondo respeito. Pois então, é aí que tristemente acaba a história, numa curva da serra, dizem os jornais. Espero que tenha aproveitado bem, de tudo, nessa vida. Para mim, fica o alerta para os riscos e o respeito com os quais é necessário lidar com estas máquinas.

                A este grande amigo, agradeço pela amizade, conselhos e bons momentos. Adeus.

E deixo minhas sinceras condolências a família e amigos.

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