Cada vez mais me surpreende o alto nível de exigência de um ser
humano moderno, industrial, sociável digital, longevo, jovem, para
uma vida satisfatória. Necessidades surgem num piscar de olhos
nesse nosso mundo frenético. Muitas pessoas já não concebem mais
viver sem um automóvel particular, televisão (LCD), geladeira
(auto-descongelante), computador (portátil), dezenas de bugigangas
eletrônicas, comidas embaladas (congeladas), ambiente climatizado.
Situações, ambientes, sociedades, trabalhos, construções,
ferramentas, alimentos, etc, que a poucas décadas eram "normais",
se tornaram abjetos, atrasados, decadentes, indesejados.
O ser humano, primata bípede altamente adaptável, apesar da sua
relativa fragilidade física quando comparado a outros animais,
sempre soube utilizar sua inteligência para sobreviver e se adaptar
a uma ampla gama de ambientes e situações. Através da construção de
habitações, confecção de utensílios e vestimentas, uso da linguagem
e das mais variadas fontes de alimento, etc, este ser singular tem
sobrevivido até então ao teste do tempo e se multiplicado
velozmente, especialmente de uns séculos para cá.
Uma das consequências dessa habilidade de se adaptar a diferentes
situações foi o surgimento de muitas culturas ao redor do mundo.
Cada uma é o reflexo da interação dos grupos humanos locais com
seus ambientes durante dezenas ou centenas de gerações. Cada
cultura contém os traços das estratégias que tais pessoas
utilizaram para sobreviver naquele ambiente. São muito mais do que
meros traços peculiares e pitorescos que caracterizam um ou outro
povo, como por vezes aparentam ser nos pacotes turísticos; são (ou
foram) verdadeiros conjuntos de saberes e práticas necessários a
sobrevivência. Contudo, atualmente ocorre uma acentuada perda
cultural, o desaparecimento de conjuntos inteiros de conhecimentos
coletivos, o abandono de modos de vida diversos. Vemos o
crescimento de uma "monocultura globalizada", que engole e
subordina todas as demais, fazendo com que os povos enterrem e
esqueçam do baú de conhecimentos da humanidade, enquanto esta
poderosa cultura se promove como o inexorável caminho do progresso
humano através de novos conhecimentos e tecnologias.
Por que isso ocorre? O fenômeno que vemos hoje poderia ser chamado
de "a industrialização global da humanidade". Se antes os bens (e o
modo de pensar) industriais eram característicos e acessíveis
somente para a população de alguns países europeus e
norteamericanos e para a elite dos demais países, agora o são para
(quase) todos. Há alguns séculos ou décadas atrás boa parte dos
utensílios humanos tinham de ser confeccionados no local, através
do uso de técnicas centenárias, artesanalmente, um por um, muitos
deles requerendo muita mão-de-obra e recursos. Hoje em dia, são
confeccionados em larga escala e padronizados em industrias que os
produzem com baixo custo e pouca mão-de-obra, que pagam salários
fixos que mesmo que aparentemente baixos (quando comparados com os
ganhos dos patrões), permitem que estes trabalhadores possam
adquiri-los, nem que seja através do crédito, que os deixa ainda
mais encaixados nas engrenagens do sistema. Podendo adquirir estes
bens que em sua infância não tinham condições, e que seus avós nem
podiam imaginar possuir, estas pessoas se dão por satisfeitas. A
posse desses bens proporciona conforto, prazer, praticidade,
status, economia de tempo e de energia (muscular humana e animal).
Logo, é natural que todos anseiem possuí-los. Porém, para isso, é
necessário entrar no modo industrial de viver e pensar, isto é, se
especializar numa determinada tarefa e repeti-la muitas vezes
durante dias, meses ou anos, ganhar a sua parte merecida em moeda
corrente (em geral pequena para aqueles que verdadeiramente
trabalham e produzem) e troca-la por outra.
Já aqueles que que tentam seguir vivendo tradicionalmente,
encontram dificuldades pois grande parte dos territórios e recursos
necessários a confecção destes utensílios e produção de alimentos
se encontra agora nas mãos de empresas e particulares. Além disso,
o desmanche do tecido social e cultural desses modos de vida faz
com que estas pessoas sejam naúfragos no mar de seres humanos
industrializados, "ricos", bonitos e cheirosos, bem vestidos,
digitais, ao seu redor. Isso tem um efeito pronunciado
especialmente sobre os jovens, que são facilmente seduzidos pelas
novidades e possibilidades de todo um mundo novo que se abre a sua
frente. Logo, acaba que mesmo que ninguém seja "obrigado" a seguir
determinado modo de vida, são compelidos a entrarem na corrida
industrial e digital.
Esta mudança de modo de vida leva algum tempo para operar, mas no
fim o resultado é quase sempre o mesmo, variando em grau de acordo
com a prosperida alcançada por cada um na sua aventura industrial e
com a personalidade individual (cujo efeito não será analisado
neste artigo). Aquele ser mais rústico, que resistiria a situações
adversas sem pestenejar, se torna um ser domesticado, frágil,
indolente, exigente, comodista e reclamante, intolerante ao
desconforto ou falta de recursos, crente de que boa parte dos males
de origina da falta de dinheiro na conta bancária. Não tolera ou
não gosta de passar por situações mais naturais que implicam certo
"desconforto" quando comparadas com o ambiente dum apartamento,
escritório ou automóvel. Poderiam ser encaradas como momentos de
repouso, lazer e divertimento, mas são vistas por muitos como um
sofrimento desnecessário e indesejável.
É possível ilustrar estas afirmações de variadas formas. Por
exemplo, para muitos que tenham um automóvel, um veículo de
passeio, chega a ser quase uma ofensa sugerir que usem o transporte
público, ou ande de bicicleta uma vez por semana, ou combine
caronas com seus familiares, amigos, colegas e vizinhos, ou vá
caminhando fazer compras. Muitas pessoas já acham terrível
imaginarem-se realizando uma viagem entre capitais brasileiras a
bordo de um ônibus (climatizado), em uma viagem de várias horas de
duração, sem realizar que no século passado devia levar dias num
trem, ou um mês numa carruagem ou no lombo do cavalo, com alguns
pernoites (já que não existiam faróis e os animais cansam) na beira
de estradas desertas. Deve causar arrepios cogitar que a algumas
décadas atrás quase todo mundo se deslocava ou a pé, ou por tração
animal, a poucos km/h. Será que perdemos a capacidade de caminhar?
Claro que as distâncias percorridas atualmente são maiores e o
tempo (parece) curto, porém muitos deslocamentos cotidianos
poderiam ser feitos sem automóveis.
Outra tema é sugerir em produzir ou obter parte de sua comida
diretamente, seja através de uma horta e/ou pomar doméstico, ou
pegando frutas na beira da estrada ou pedindo em quintais de
terceiros, ou produzindo doces, sucos e conservas. Exceto em locais
bem interioranos, poucos se dão ao trabalho, pois o supermercado
está sempre abarrotado com alimentos da época e os fora de época, e
nesse meio tempo catando frutinha se perde a possibilidade de
ganhar dinheiro. Entretanto, produzir alimentos era a ocupação
básica dos humanos a pouco tempo atrás, quando creio que o
desemprego não era um problema. No ambiente rural, é surpreendente
toda a fartura da natureza, presente seja em terrenos abandonados,
quintais ou beiras de estrada, na forma de frutas, verduras e
cipós. A maior parte se estraga, vira comida de vermes, fungos ou
bactérias (tudo bem, eles também merecem). Tanta fruta que mal é
possível dar conta de colhe-las e comê-las.
Pensar em formas de reutilizar seus resíduos é coisa de pobre,
lixeiro, que junta tralhas e não quer gastar, pois o certo é ir
direto ao shopping comprar um modelo moderno, lustroso, brilhante e
caro de qualquer bem material imaginável. E relatos orais contam
que em Maquiné-RS os vestidinhos das crianças (sejam meninos ou
meninas) eram feitos com sacos de açucar, de tão "pobres" que eram.
Tempos difíceis. Ainda bem que hoje em dia boa parte das garrafas
PET e vidros são reutilizadas, de uma forma ou outra, para guardar
sementes, milho, feijão, sucos, combustíveis e liquidos em
geral.
Uma das consequências de tudo isso é a a redução da capacidade
geral das pessoas de de enfrentar situações adversas. Não me refiro
aqui problemas de relacionamento no trabalho ou na família, mas sim
de situações reais de desconforto físico. Andar de bicicleta uma
distância superior a poucos km é loucura. Sair na rua com chuva,
mesmo vestindo uma capa de chuva, é algo a se fazer somente em
momentos estritamente necessários. Dormir fora de uma cama é algo
impensável para boa parte da humanidade. Entretanto, como é belo e
profundo acampar em meio a natureza, com as estrelas brilhando no
céu e os grilos cantando do lado da barraca. E isso que hoje em
dias temos sacos de dormir compactos e confortáveis e barracas de
material sintético impermeável, fáceis de armar e leves. Imaginem a
algumas décadas, quando as barracas eram muito mais pesadas, ou
numa época onde não existiam plásticos e sacos de dormir. Apesar
destas tecnologias serem relativamente acessíveis, muita gente acha
impensável "acampar sem banho quente e rodeado de mosquitos", nem
que seja por uma ou duas noites apenas. E mesmo sem nada disso os
tropeiros viviam a tocar o gado, dormindo ao relento sobre os
arreios e enrolados no pala. Aqueles que eram os Homo sapiens de
verdade, e estes temo que estejam extintos. Poderiam ser citados
outros exemplos, mas creio que a mensagem já se fez
entendida.
Outro fato nefasto é a redução da capacidade criativa geral das
pessoas. Se em um outro tempo elas eram obrigadas a "inventar"
soluções para seus problemas e criar manualmente parte de seus
bens, agora tudo é comprável. Se educa e se estimula ao máximo a
especialização constante do cidadão, como forma de ascender
profissionalmente na sociedade e no mercado de trabalho. Apesar
disso aumentar a probabilidade de que seus vencimentos aumentem,
isso também aumenta a probabilidade de que ele se torne um cidadão
alienado das interrelações existentes no mundo. É possível
contrapor que graças a essa especialização a tecnologia e as
invenções ocorrem de forma cada vez mais rápida, mas isso não é um
fenômeno geral da humanidade. Alguns poucos especialistas inventam
novidades (boa parte delas bugigangas), os capitalistas inventam
uma forma de produzi-las em larga escala e com baixo custo, e o
restante do povo implora por um "emprego" (também no sentido de
servir para algo no conjunto da máquina social) para ganhar seus
merecidos trocados e ter o direito de possuí-las.
Logo, é possível concluir que, seguindo o curso atual da história,
existirão proporcionalmente cada vez menos seres humanos da
variedade rústica e vigorosa, e mais e mais da variedade frágil e
indolente, pois é isso que nosso sistema (que está dentro de cada
mente) requer: humanos domesticados, consumistas e comodistas.
Quando mais se aproximar destes adjetivos, maior a possibilidade de
arranjar um emprego melhor, e aí aumentam os vencimentos, e aí você
compra mais tralhas e sobe na vida.
Entretanto, este não é um caminho inevitável, e depende também do
senso crítico de cada um. É possível utilizar as modernidades sem
abandonar nossa raiz mais humana, aquela que como animais nos
conecta aos demais animais, às outras formas de vida e ao Universo,
e apreciar os sublimes espetáculos que a Natureza nos proporciona,
bastando estar de olhos abertos e disposto a enfrentar vez por
outra algumas "adversidades". Mais que uma crítica à humanidade, o
texto deve ser um alerta para o fato de que estamos perdendo estas
conexões, e que ainda é tempo de recuperá-las, bastando trabalhar o
que há de mais sublime dentro de nós mesmos e buscando a força
ancestral que permeia nossas mentes e corpos.
Cada vez mais me surpreende o alto nível de exigência de um ser
humano moderno, industrial, sociável digital, longevo, jovem, para
uma vida satisfatória. Necessidades surgem num piscar de olhos
nesse nosso mundo frenético. Muitas pessoas já não concebem mais
viver sem um automóvel particular, televisão (LCD), geladeira
(auto-descongelante), computador (portátil), dezenas de bugigangas
eletrônicas, comidas embaladas (congeladas), ambiente climatizado.
Situações, ambientes, sociedades, trabalhos, construções,
ferramentas, alimentos, etc, que a poucas décadas eram "normais",
se tornaram abjetos, atrasados, decadentes, indesejados.
O ser humano, primata bípede altamente adaptável, apesar da sua
relativa fragilidade física quando comparado a outros animais,
sempre soube utilizar sua inteligência para sobreviver e se adaptar
a uma ampla gama de ambientes e situações. Através da construção de
habitações, confecção de utensílios e vestimentas, uso da linguagem
e das mais variadas fontes de alimento, etc, este ser singular tem
sobrevivido até então ao teste do tempo e se multiplicado
velozmente, especialmente de uns séculos para cá.
Uma das consequências dessa habilidade de se adaptar a diferentes
situações foi o surgimento de muitas culturas ao redor do mundo.
Cada uma é o reflexo da interação dos grupos humanos locais com
seus ambientes durante dezenas ou centenas de gerações. Cada
cultura contém os traços das estratégias que tais pessoas
utilizaram para sobreviver naquele ambiente. São muito mais do que
meros traços peculiares e pitorescos que caracterizam um ou outro
povo, como por vezes aparentam ser nos pacotes turísticos; são (ou
foram) verdadeiros conjuntos de saberes e práticas necessários a
sobrevivência. Contudo, atualmente ocorre uma acentuada perda
cultural, o desaparecimento de conjuntos inteiros de conhecimentos
coletivos, o abandono de modos de vida diversos. Vemos o
crescimento de uma "monocultura globalizada", que engole e
subordina todas as demais, fazendo com que os povos enterrem e
esqueçam do baú de conhecimentos da humanidade, enquanto esta
poderosa cultura se promove como o inexorável caminho do progresso
humano através de novos conhecimentos e tecnologias.
Por que isso ocorre? O fenômeno que vemos hoje poderia ser chamado
de "a industrialização global da humanidade". Se antes os bens (e o
modo de pensar) industriais eram característicos e acessíveis
somente para a população de alguns países europeus e
norteamericanos e para a elite dos demais países, agora o são para
(quase) todos. Há alguns séculos ou décadas atrás boa parte dos
utensílios humanos tinham de ser confeccionados no local, através
do uso de técnicas centenárias, artesanalmente, um por um, muitos
deles requerendo muita mão-de-obra e recursos. Hoje em dia, são
confeccionados em larga escala e padronizados em industrias que os
produzem com baixo custo e pouca mão-de-obra, que pagam salários
fixos que mesmo que aparentemente baixos (quando comparados com os
ganhos dos patrões), permitem que estes trabalhadores possam
adquiri-los, nem que seja através do crédito, que os deixa ainda
mais encaixados nas engrenagens do sistema. Podendo adquirir estes
bens que em sua infância não tinham condições, e que seus avós nem
podiam imaginar possuir, estas pessoas se dão por satisfeitas. A
posse desses bens proporciona conforto, prazer, praticidade,
status, economia de tempo e de energia (muscular humana e animal).
Logo, é natural que todos anseiem possuí-los. Porém, para isso, é
necessário entrar no modo industrial de viver e pensar, isto é, se
especializar numa determinada tarefa e repeti-la muitas vezes
durante dias, meses ou anos, ganhar a sua parte merecida em moeda
corrente (em geral pequena para aqueles que verdadeiramente
trabalham e produzem) e troca-la por outra.
Já aqueles que que tentam seguir vivendo tradicionalmente,
encontram dificuldades pois grande parte dos territórios e recursos
necessários a confecção destes utensílios e produção de alimentos
se encontra agora nas mãos de empresas e particulares. Além disso,
o desmanche do tecido social e cultural desses modos de vida faz
com que estas pessoas sejam naúfragos no mar de seres humanos
industrializados, "ricos", bonitos e cheirosos, bem vestidos,
digitais, ao seu redor. Isso tem um efeito pronunciado
especialmente sobre os jovens, que são facilmente seduzidos pelas
novidades e possibilidades de todo um mundo novo que se abre a sua
frente. Logo, acaba que mesmo que ninguém seja "obrigado" a seguir
determinado modo de vida, são compelidos a entrarem na corrida
industrial e digital.
Esta mudança de modo de vida leva algum tempo para operar, mas no
fim o resultado é quase sempre o mesmo, variando em grau de acordo
com a prosperida alcançada por cada um na sua aventura industrial e
com a personalidade individual (cujo efeito não será analisado
neste artigo). Aquele ser mais rústico, que resistiria a situações
adversas sem pestenejar, se torna um ser domesticado, frágil,
indolente, exigente, comodista e reclamante, intolerante ao
desconforto ou falta de recursos, crente de que boa parte dos males
de origina da falta de dinheiro na conta bancária. Não tolera ou
não gosta de passar por situações mais naturais que implicam certo
"desconforto" quando comparadas com o ambiente dum apartamento,
escritório ou automóvel. Poderiam ser encaradas como momentos de
repouso, lazer e divertimento, mas são vistas por muitos como um
sofrimento desnecessário e indesejável.
É possível ilustrar estas afirmações de variadas formas. Por
exemplo, para muitos que tenham um automóvel, um veículo de
passeio, chega a ser quase uma ofensa sugerir que usem o transporte
público, ou ande de bicicleta uma vez por semana, ou combine
caronas com seus familiares, amigos, colegas e vizinhos, ou vá
caminhando fazer compras. Muitas pessoas já acham terrível
imaginarem-se realizando uma viagem entre capitais brasileiras a
bordo de um ônibus (climatizado), em uma viagem de várias horas de
duração, sem realizar que no século passado devia levar dias num
trem, ou um mês numa carruagem ou no lombo do cavalo, com alguns
pernoites (já que não existiam faróis e os animais cansam) na beira
de estradas desertas. Deve causar arrepios cogitar que a algumas
décadas atrás quase todo mundo se deslocava ou a pé, ou por tração
animal, a poucos km/h. Será que perdemos a capacidade de caminhar?
Claro que as distâncias percorridas atualmente são maiores e o
tempo (parece) curto, porém muitos deslocamentos cotidianos
poderiam ser feitos sem automóveis.
Outra tema é sugerir em produzir ou obter parte de sua comida
diretamente, seja através de uma horta e/ou pomar doméstico, ou
pegando frutas na beira da estrada ou pedindo em quintais de
terceiros, ou produzindo doces, sucos e conservas. Exceto em locais
bem interioranos, poucos se dão ao trabalho, pois o supermercado
está sempre abarrotado com alimentos da época e os fora de época, e
nesse meio tempo catando frutinha se perde a possibilidade de
ganhar dinheiro. Entretanto, produzir alimentos era a ocupação
básica dos humanos a pouco tempo atrás, quando creio que o
desemprego não era um problema. No ambiente rural, é surpreendente
toda a fartura da natureza, presente seja em terrenos abandonados,
quintais ou beiras de estrada, na forma de frutas, verduras e
cipós. A maior parte se estraga, vira comida de vermes, fungos ou
bactérias (tudo bem, eles também merecem). Tanta fruta que mal é
possível dar conta de colhe-las e comê-las.
Pensar em formas de reutilizar seus resíduos é coisa de pobre,
lixeiro, que junta tralhas e não quer gastar, pois o certo é ir
direto ao shopping comprar um modelo moderno, lustroso, brilhante e
caro de qualquer bem material imaginável. E relatos orais contam
que em Maquiné-RS os vestidinhos das crianças (sejam meninos ou
meninas) eram feitos com sacos de açucar, de tão "pobres" que eram.
Tempos difíceis. Ainda bem que hoje em dia boa parte das garrafas
PET e vidros são reutilizadas, de uma forma ou outra, para guardar
sementes, milho, feijão, sucos, combustíveis e liquidos em
geral.
Uma das consequências de tudo isso é a a redução da capacidade
geral das pessoas de de enfrentar situações adversas. Não me refiro
aqui problemas de relacionamento no trabalho ou na família, mas sim
de situações reais de desconforto físico. Andar de bicicleta uma
distância superior a poucos km é loucura. Sair na rua com chuva,
mesmo vestindo uma capa de chuva, é algo a se fazer somente em
momentos estritamente necessários. Dormir fora de uma cama é algo
impensável para boa parte da humanidade. Entretanto, como é belo e
profundo acampar em meio a natureza, com as estrelas brilhando no
céu e os grilos cantando do lado da barraca. E isso que hoje em
dias temos sacos de dormir compactos e confortáveis e barracas de
material sintético impermeável, fáceis de armar e leves. Imaginem a
algumas décadas, quando as barracas eram muito mais pesadas, ou
numa época onde não existiam plásticos e sacos de dormir. Apesar
destas tecnologias serem relativamente acessíveis, muita gente acha
impensável "acampar sem banho quente e rodeado de mosquitos", nem
que seja por uma ou duas noites apenas. E mesmo sem nada disso os
tropeiros viviam a tocar o gado, dormindo ao relento sobre os
arreios e enrolados no pala. Aqueles que eram os Homo sapiens de
verdade, e estes temo que estejam extintos. Poderiam ser citados
outros exemplos, mas creio que a mensagem já se fez
entendida.
Outro fato nefasto é a redução da capacidade criativa geral das
pessoas. Se em um outro tempo elas eram obrigadas a "inventar"
soluções para seus problemas e criar manualmente parte de seus
bens, agora tudo é comprável. Se educa e se estimula ao máximo a
especialização constante do cidadão, como forma de ascender
profissionalmente na sociedade e no mercado de trabalho. Apesar
disso aumentar a probabilidade de que seus vencimentos aumentem,
isso também aumenta a probabilidade de que ele se torne um cidadão
alienado das interrelações existentes no mundo. É possível
contrapor que graças a essa especialização a tecnologia e as
invenções ocorrem de forma cada vez mais rápida, mas isso não é um
fenômeno geral da humanidade. Alguns poucos especialistas inventam
novidades (boa parte delas bugigangas), os capitalistas inventam
uma forma de produzi-las em larga escala e com baixo custo, e o
restante do povo implora por um "emprego" (também no sentido de
servir para algo no conjunto da máquina social) para ganhar seus
merecidos trocados e ter o direito de possuí-las.
Logo, é possível concluir que, seguindo o curso atual da história,
existirão proporcionalmente cada vez menos seres humanos da
variedade rústica e vigorosa, e mais e mais da variedade frágil e
indolente, pois é isso que nosso sistema (que está dentro de cada
mente) requer: humanos domesticados, consumistas e comodistas.
Quando mais se aproximar destes adjetivos, maior a possibilidade de
arranjar um emprego melhor, e aí aumentam os vencimentos, e aí você
compra mais tralhas e sobe na vida.
Entretanto, este não é um caminho inevitável, e depende também do
senso crítico de cada um. É possível utilizar as modernidades sem
abandonar nossa raiz mais humana, aquela que como animais nos
conecta aos demais animais, às outras formas de vida e ao Universo,
e apreciar os sublimes espetáculos que a Natureza nos proporciona,
bastando estar de olhos abertos e disposto a enfrentar vez por
outra algumas "adversidades". Mais que uma crítica à humanidade, o
texto deve ser um alerta para o fato de que estamos perdendo estas
conexões, e que ainda é tempo de recuperá-las, bastando trabalhar o
que há de mais sublime dentro de nós mesmos e buscando a força
ancestral que permeia nossas mentes e corpos.







